Wednesday, December 16, 2009

Moda de Natal





Este dia de frio e chuva lembra os invernos de antigamente.
É preciso o frio e o costelo, dizia mestre Torga,
é preciso frio e chuva e geada e neve para matar os bichos
que estragam as colheitas do ano que vem.
Só que o meu limoeiro chora, e a pequena tangerineira,
apesar dos mimos e coberturas, lá tem as pontas tombadas.
E o feto, e a relva, tudo a pintar-se de castanho,
a denunciar as duas únicas noites de geada.
Cadê o tempo do S. Martinho, cadê?
O S. Martinho, ainda Martinho antes de ser santo,
que chegava com a sua capa cavalgando os campos
gelados, abrindo-a ao meio a fio de espada, agasalhando
o velho, o mendigo, o sem-abrigo, o que quiserem chamar-lhe?
E então Deus, que ainda era Deus-Todo-Poderoso
– e já não é, porque deixa a Virgem nascer com cara de gato –
fez parar a chuva e a neve, abriu a janela do céu para o sol entrar
e dar calor aos velhos, aos mendigos, aos sem-abrigo,
às crianças pobres sem aquecimento em casa,
a todos que não poluem o ar porque não têm carro,
nem uns cobres para um cigarrito…
Haja Deus! Haja um deus novo que permita a virgem 
e os presépios, com caras de gatos, burros e vacas,
com cara de gato, os reis Magos também.

Qualquer dia somos todos egípcios outra vez,
nem há como o regresso às origens.
Um dia destes vou ver se os mosquitos também têm direito
a presépio, pois então. E nas janelas, nos varandins,
em vez do S. Nicolau a trepar,
em vez daquele novo Jesus nas bandeiras,
teremos um mosquito patudo,
elegantérrimo,
uma pata
de
cada
vez,
delicadamente,
invadindo
meigamente
as
casas
portuguesas!


Thursday, November 05, 2009

Pátria, eu te pertenço!







Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Jorge de Sena

Friday, October 30, 2009

Imaginação




Gosto de ver chegar o sol depois da chuva que deixa tudo lavado.
Sorriem as gotas brilhando sobre as pétalas, as folhas, a relva,
Mas falta-me o cheiro do calor da terra e o céu também não é igual;
Sinto as nuvens mais leves, o horizonte sem linha.


Nesses breves instantes assola-me a ideia de é que preciso,
É preciso voltar a encontrar o chão que deixei e vive misturado
Nas ilusões que mantenho acordado e nos sonhos que eternizo.
Cresceram as silvas, as canas encheram as margens do rio,
Mas a casa ainda está de pé. Nas janelas ainda as cortinas de renda
Antiga, cobrindo os parapeitos largos, e na janela do meu quarto
A pedra de mármore rachada onde pousava aquele vaso
De avencas sempre viçosas, crescendo em cabeças enroladas
de tanto frescor, docemente envergonhadas.


Quem sabe os livros ainda nas estantes do quarto dos pais
Contornando a secretária grande para formar o escritório.
As portadas das janelas pintadas de verde musgo, as portas altas,
Bandeiras de vidro por cima, o tecto de tábuas de tom dourado
Todas marcadas dos nós da madeira de pinho, a minha cama
De ferro a fingir-se coberta de verdete, as maçanetas e as barras
A pedirem solarine, o mosquiteiro branco…


 «Acordo e vejo que nem um breve engano posso ter…»


Sunday, August 30, 2009

Paisagem



Uma névoa, um sussurro, uma gaivota, um campo de trigo
O vento perseguindo cada imagem, antes a brisa
que é mais branda e mais bonita, mais menina.
O vento é mais forte e é macho e é potente e corre
e enfurece-se e muda a face da terra que destempera.
Às vezes rodopia em dança frenética numa ânsia de abraço
que sorve este mundo e o outro. Já lhe disse que não quero,
o meu corpo é frágil e a mente por vezes perde a força
e a vontade de procurar o pólen cada vez mais amargo.
Devem ser os homens a espalhar veneno onde eu colho
o mel que eles precisam para o seu sustento.
Parece que não sabem isso.
São tolos os homens.
Para sentir o mar, basta respirar fundo e ouvir a maresia,
para ouvir o mar basta mergulhar e deixar a onda invadir o corpo,
para invadir o mar basta abrir os olhos e deixar que ele se entregue
inteiro a nós, deixá-lo invadir os pensamentos,
ouvir tudo o que ele quer dizer, o que queremos ouvir.
Depois, fechar os olhos e morrer,
seguir devagarinho para outra dimensão,
sem perder o rumo.

Wednesday, August 05, 2009

Inquietação


Deixa-me dar um passo para além da esperança, não deixes

que as asas crestem ao sol de angústia. Voltei cheio de vento

de velas enfunadas, de vozes a descobrir, de coração tremendo

de afagos e dúvidas. Quero deixar fermento que cresça e transvase

se coza em alimento da alma que há-de levar aos mares de cantos

de sereias, de duendes que conduzam a pedra do mito à montanha alta,

que façam florescer a encosta de verdes prados, de fontes cantantes,

sussurrantes, descendo em cristais que fundam as neves

e fecundem a terra e que ela floresça em jardins de espanto.

Não mais as memórias vãs dos fogos da terra aberta em chama

do magma escorrendo lento e voraz, a cor morrendo aos poucos

em cinzas escurecidas por séculos pousando. Tu és o que eu sou.

Tu és o que eu já não posso ser. Interrogo e vou e sou.

Quero-te profundo e doce e quieto e calmo a olhar o mundo

a ouvir os deuses e a seguir em frente. A deusa a interrogar, sim,

a assertividade da palavra dita, da afirmação negada do sussurro

na noite esquiva e mentirosa e nunca leda porque lhe falta a luz.

O pó aparece no ar através dos raios do sol. Ele é a verdade

que temos, a maior conseguida. Enquanto quiser brilhar assim,

despojadamente, para nós, para vós, para ti, deusa até ao fim.


Monday, June 15, 2009

Sopro



Voo por aí e procuro o nada. Chego -me ao calor, ao sangue quente,

E encontro um ardor que me enfada, quase me ofende.

O tempo muda, nós mudamos, eu também mudei. E como mudei!

Travesti-me de insecto, logo eu, que por eles me inquieto,

Nem é por medo, nem é por nojo, nem é por força de lei,

É porque me incomoda pelo sentido do tacto. Um insecto

Voador repele-se, não se toca, não se deixa tocar. Antes um réptil.

Chamo então por ti, grito, clamo, espero em ânsias por espaços,

Espero rachar o céu, o sol queimando, ardendo no deserto,

a areia fundindo a desfazer-se em espasmos,

Ar quente a subir em ondas que o olhar segue, o olhar tão perto,

E o olhar engana. Não há ventos, nem o sussurro do mar.

Os deuses sopram um hálito quente, e eu embrulhado nele.

Quero olhar o sol e não posso. Quero suster-me no ar

E não sei, quero morar na água e não consigo.

Há como que um jogo de forças que não me deixa avançar,

As regras não permitem. Já olhei para trás e sei que já voei,

Sei que já vim da água, já fiz parte do sol. Quem sabe eu hei-de

Aprender o jogo, estudar as forças e alterar as regras?

Assim tem sido através dos tempos. Nem tudo o que parece, é;

Nem sempre o que existe aparece ao primeiro olhar.

O ouro aparece misturado na areia que é preciso lavar.

Mas há o filão, a estria longa escondida na terra.

Eu sou a terra. Como fui o sol e hei-de brotar em água.

Porque já não posso voar.




Tuesday, June 02, 2009

Olhar de dentro



Eu não canto a minha humildade porque a não tenho.

Sou feroz na altivez de mim, distante de tudo, do horror

No medo da morte, essa garra que chega, crava e fere

Mas é breve e não deixa que o mundo vá connosco.

Descanso da febre e do cansaço, da loucura, o desvario,

Do que o corpo implora e o tempo não permite,

Os gestos calam, a vontade esconde, a sociedade oprime

Um desconcerto de sentidos que é prazer e dor

Não o sabe a razão, não o sabe o pensamento,

Só o voo final, o abraço, a entrega ao sono enfim

Me vai deixar planar no infinito e já ser coisa nenhuma.

Os meus olhos se afundam por esta janela de nada

Que tem o mundo lá dentro e vai apagar a chama

E suga o ar, o alento, a brasa que tenho dentro de mim

Como uma dor de papel, uma ânsia, um desconcerto,

Uma luva de espanto, um sonho a desfazer no fim.


Quando o olhar fugir pela fenda da terra ou falésia no mar

Quando a águia, o falcão, a gaivota, o albatroz, a java

Me levarem com eles cruzando os oceanos, ao fim da terra

Me assombrarem para além das nuvens, da tempestade e do vento

Então te abraço e me abraças e me aquieto enfim.



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