Voo por aí e procuro o nada. Chego -me ao calor, ao sangue quente,
E encontro um ardor que me enfada, quase me ofende.
O tempo muda, nós mudamos, eu também mudei. E como mudei!
Travesti-me de insecto, logo eu, que por eles me inquieto,
Nem é por medo, nem é por nojo, nem é por força de lei,
É porque me incomoda pelo sentido do tacto. Um insecto
Voador repele-se, não se toca, não se deixa tocar. Antes um réptil.
Chamo então por ti, grito, clamo, espero em ânsias por espaços,
Espero rachar o céu, o sol queimando, ardendo no deserto,
a areia fundindo a desfazer-se em espasmos,
Ar quente a subir em ondas que o olhar segue, o olhar tão perto,
E o olhar engana. Não há ventos, nem o sussurro do mar.
Os deuses sopram um hálito quente, e eu embrulhado nele.
Quero olhar o sol e não posso. Quero suster-me no ar
E não sei, quero morar na água e não consigo.
Há como que um jogo de forças que não me deixa avançar,
As regras não permitem. Já olhei para trás e sei que já voei,
Sei que já vim da água, já fiz parte do sol. Quem sabe eu hei-de
Aprender o jogo, estudar as forças e alterar as regras?
Assim tem sido através dos tempos. Nem tudo o que parece, é;
Nem sempre o que existe aparece ao primeiro olhar.
O ouro aparece misturado na areia que é preciso lavar.
Mas há o filão, a estria longa escondida na terra.
Eu sou a terra. Como fui o sol e hei-de brotar em água.
Porque já não posso voar.

