Monday, June 15, 2009

Sopro



Voo por aí e procuro o nada. Chego -me ao calor, ao sangue quente,

E encontro um ardor que me enfada, quase me ofende.

O tempo muda, nós mudamos, eu também mudei. E como mudei!

Travesti-me de insecto, logo eu, que por eles me inquieto,

Nem é por medo, nem é por nojo, nem é por força de lei,

É porque me incomoda pelo sentido do tacto. Um insecto

Voador repele-se, não se toca, não se deixa tocar. Antes um réptil.

Chamo então por ti, grito, clamo, espero em ânsias por espaços,

Espero rachar o céu, o sol queimando, ardendo no deserto,

a areia fundindo a desfazer-se em espasmos,

Ar quente a subir em ondas que o olhar segue, o olhar tão perto,

E o olhar engana. Não há ventos, nem o sussurro do mar.

Os deuses sopram um hálito quente, e eu embrulhado nele.

Quero olhar o sol e não posso. Quero suster-me no ar

E não sei, quero morar na água e não consigo.

Há como que um jogo de forças que não me deixa avançar,

As regras não permitem. Já olhei para trás e sei que já voei,

Sei que já vim da água, já fiz parte do sol. Quem sabe eu hei-de

Aprender o jogo, estudar as forças e alterar as regras?

Assim tem sido através dos tempos. Nem tudo o que parece, é;

Nem sempre o que existe aparece ao primeiro olhar.

O ouro aparece misturado na areia que é preciso lavar.

Mas há o filão, a estria longa escondida na terra.

Eu sou a terra. Como fui o sol e hei-de brotar em água.

Porque já não posso voar.




Tuesday, June 02, 2009

Olhar de dentro



Eu não canto a minha humildade porque a não tenho.

Sou feroz na altivez de mim, distante de tudo, do horror

No medo da morte, essa garra que chega, crava e fere

Mas é breve e não deixa que o mundo vá connosco.

Descanso da febre e do cansaço, da loucura, o desvario,

Do que o corpo implora e o tempo não permite,

Os gestos calam, a vontade esconde, a sociedade oprime

Um desconcerto de sentidos que é prazer e dor

Não o sabe a razão, não o sabe o pensamento,

Só o voo final, o abraço, a entrega ao sono enfim

Me vai deixar planar no infinito e já ser coisa nenhuma.

Os meus olhos se afundam por esta janela de nada

Que tem o mundo lá dentro e vai apagar a chama

E suga o ar, o alento, a brasa que tenho dentro de mim

Como uma dor de papel, uma ânsia, um desconcerto,

Uma luva de espanto, um sonho a desfazer no fim.


Quando o olhar fugir pela fenda da terra ou falésia no mar

Quando a águia, o falcão, a gaivota, o albatroz, a java

Me levarem com eles cruzando os oceanos, ao fim da terra

Me assombrarem para além das nuvens, da tempestade e do vento

Então te abraço e me abraças e me aquieto enfim.



Monday, May 18, 2009

Lucidez


http://www.youtube.com/watch?v=6-3X5hIFXYU

Monday, April 27, 2009

Delírio


Foi a voz da brisa foi o perfume o aroma o matiz,

o fulgor das cores, foi o cheiro das rosas que acendeu

o lume e soprou a chama e aspirou, sugou

as asas já sem rumo. E o corpo em valsa rodou,

rodopiou, entregou-se: eu vou onde tu fores!


Mas não, que a primavera é ardilosa e o verão quente

chega e queima tudo: ardem as asas, o outono bate à porta,

murcham as rosas, já não enfeitam o muro, o vento sopra,

a tempestade é certa, o inverno chega, estende o manto,

a neve a geada sobre a última rosa.


Os espectros assomam das trevas e assolam

num crescendo todas as glórias, todos os sonhos,

todos os medos, cavalgando a um tempo

sobre a condição de crente num ser todo poder

e destemor e arbítrio, mas que fraqueja

porque é mais forte a raiz do tempo e da semente

e da terra que gerou a tormenta que consome

as almas e lhes bebe o sangue…



Sunday, March 29, 2009

Repouso



Dá-me a tua mão e vem sentar-te na cadeira velha e ferrugenta

que os novos deixam na rua porque não tem préstimo, porque perdeu

a cor, a beleza, abrem-se já as rugas, deformam-se os ossos.


Ela continua a ser uma cadeira elegante e útil no seu conceito

de sustentar o corpo dos humanos, lhes repousar os braços nos dela,

de lhes passar o repouso, o conforto, a languidez, o quebranto, a paz

à sombra do pinheiro antigo que a hera já cobre em afagos de verde

onde a pele se rasga, os nós retorcem, seguram veios, pintam tons

maduros, cálidos, repousantes, de afectos recebendo a luz que escoa

nos ramos, nas samas que pendem e balouçam levemente…


Acordem os fantasmas da minha escuridão, dancem, gritem,

clamem pela liberdade de ver a luz, a cor, a formosura que cresce

e se derrama por aí que eu sinto, que eu ouço, que eu aspiro que eu

afago, que eu apeteço. Vem daí que eu só quero voar,

de olhos fechados seguir o vento galgar a terra e rasgar as ondas

as nuvens perder-me no infinito para lá do azul que eu sei escuro

de breu mas um olho imenso, cheio de cor, de cores, longe,

muito longe chama por mim, chama por nós.

Outra vez nascendo.


Sunday, February 22, 2009

Meu amor


Arrasto-me pelo fundo daquele espaço

Onde me rasguei e deixei que o sangue riscasse o meu corpo

Onde a água morna e grossa guardou o ardor e a dor das feridas

Onde as lágrimas se fizeram cor-de-rosa, onde morreu

A esperança do regresso à água que me impele

A um lugar a que não pertenço e me suga o pensamento

Me enfraquece o corpo me acrescenta as memórias

Me faz vibrar na juventude que os deuses prometem

E não cumprem. E mais voraz que o pensamento

Mais quente que esta ansiedade este sopro de alma

Mais veloz que a tempestade que me assola as noites

Por tudo o que sonhei e não colhi nos arco-íris nascendo

Na frente dos meus desejos, na estrada que corre pela mata…


Há sempre uma laranjeira em flor

Há sempre uma escada encostada aos ramos

E marimbondos fazendo a ronda.



Saturday, February 14, 2009

Pôr-do-sol


E quero eu lá saber do pranto

Que enfeita os olhos verdes da donzela

Quero lá saber se há espanto em cada despertar de fúria

Se nasce em mim um rio de amargura e pena

Pela flor que não floriu na primavera que ainda não chegou

Se cresce em mim o desespero, a dor de sangue

Que já não tenho, do som que não ouço

Das trevas que não chamei

E se despenham, troando com fragor

Sovando as rochas o continente a terra inteira

As pedras onde me prendo a ver do sol

Que chega de manso e não sustém

As vagas a espuma a brancura as gotículas que voam

Que salpicam que ferem que ofendem que gritam

Mas não branqueiam as rochas

Não lhe tiram a cor que não têm

E as deixam exangues à espera de outra maré-viva.

Romeiro, Romeiro, quem és tu

que te vais num pôr-de-sol de inverno?