e os presépios, com caras de gatos, burros e vacas,
com cara de gato, os reis Magos também.
Qualquer dia somos todos egípcios outra vez,
«Eu creio na transmigração das almas por isto de Eu viver em Portugal.» Almada Negreiros
Voo por aí e procuro o nada. Chego -me ao calor, ao sangue quente,
E encontro um ardor que me enfada, quase me ofende.
O tempo muda, nós mudamos, eu também mudei. E como mudei!
Travesti-me de insecto, logo eu, que por eles me inquieto,
Nem é por medo, nem é por nojo, nem é por força de lei,
É porque me incomoda pelo sentido do tacto. Um insecto
Voador repele-se, não se toca, não se deixa tocar. Antes um réptil.
Chamo então por ti, grito, clamo, espero em ânsias por espaços,
Espero rachar o céu, o sol queimando, ardendo no deserto,
a areia fundindo a desfazer-se em espasmos,
Ar quente a subir em ondas que o olhar segue, o olhar tão perto,
E o olhar engana. Não há ventos, nem o sussurro do mar.
Os deuses sopram um hálito quente, e eu embrulhado nele.
Quero olhar o sol e não posso. Quero suster-me no ar
E não sei, quero morar na água e não consigo.
Há como que um jogo de forças que não me deixa avançar,
As regras não permitem. Já olhei para trás e sei que já voei,
Sei que já vim da água, já fiz parte do sol. Quem sabe eu hei-de
Aprender o jogo, estudar as forças e alterar as regras?
Assim tem sido através dos tempos. Nem tudo o que parece, é;
Nem sempre o que existe aparece ao primeiro olhar.
O ouro aparece misturado na areia que é preciso lavar.
Mas há o filão, a estria longa escondida na terra.
Eu sou a terra. Como fui o sol e hei-de brotar em água.
Porque já não posso voar.
Eu não canto a minha humildade porque a não tenho.
Sou feroz na altivez de mim, distante de tudo, do horror
No medo da morte, essa garra que chega, crava e fere
Mas é breve e não deixa que o mundo vá connosco.
Descanso da febre e do cansaço, da loucura, o desvario,
Do que o corpo implora e o tempo não permite,
Os gestos calam, a vontade esconde, a sociedade oprime
Um desconcerto de sentidos que é prazer e dor
Não o sabe a razão, não o sabe o pensamento,
Só o voo final, o abraço, a entrega ao sono enfim
Me vai deixar planar no infinito e já ser coisa nenhuma.
Os meus olhos se afundam por esta janela de nada
Que tem o mundo lá dentro e vai apagar a chama
E suga o ar, o alento, a brasa que tenho dentro de mim
Como uma dor de papel, uma ânsia, um desconcerto,
Uma luva de espanto, um sonho a desfazer no fim.
Quando o olhar fugir pela fenda da terra ou falésia no mar
Quando a águia, o falcão, a gaivota, o albatroz, a java
Me levarem com eles cruzando os oceanos, ao fim da terra
Me assombrarem para além das nuvens, da tempestade e do vento
Então te abraço e me abraças e me aquieto enfim.